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domingo, 26 de outubro de 2014

Vai firme Sêo Cornélio

Vou fazendo via-sacra
Pelos botecos da cidade
Tomando uma boa
Com salgadinho e limão
Pra não dizer que não usei sinceridade
Embarco nessa canoa
Minha nega Conceição
Naquele tempo a mulher tinha respeito
Não andava faiscando direito
Para com o macho se igualar
Até me lembro embora longe o tempo vai
Que mamãe pela lei do papai
Não ia na venda comprar
Hoje a mulher quer mandar mais
Querendo direitos iguais
E o mundo virou uma Torre de Babel
A mulher não há quem a prenda no lar
E qualquer dia a gente vai achar
A cama da gente em quarto de motel

Hélio Schiavo

Ponte Nova, 27 de agosto de 1981

Crônica: A morte de Roberto Rivelino


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Espelho do Velho Chico não retrata a vida não!

Já beirando os 80, pois, nasci em 09 de outubro de 1935, nas entrelinhas dessa crônica simples, deixo o registrado que assisti hoje na TV uma notícia que me causou profundo desgosto, mas, que infelizmente, já me anunciava o desfecho há mais de cinquenta anos. A nascente do Rio São Francisco completamente seca! Que triste informação, que dolorosa constatação! 

Nas minhas andanças por este Brasil imenso, incontáveis vezes, deparei-me com o trânsito indevido e incessante de caminhões carvoeiros abastecendo os fornos das indústrias.  Já causava-me indignação tal ocorrência de desrespeito e descaso com a natureza. Preocupava-me sobretudo, que nesse país do descaso, as matas não seriam replantadas. De fato, gerações e gerações de brasileiros nasceram e cresceram sem terem visto repostas as árvores arrancadas para alimentar caldeiras de um capitalismo selvagem destruindo tudo à sua frente tendo no discurso do progresso a implantação de uma cultura consumista e irresponsável. 

No Vale do Aço, em Volta Redonda e tantos parques industriais Brasil afora consumiram-se florestas inteiras, assorearam e mataram rios, expulsaram os ribeirinhos para favelizar a cidade grande. E tudo ocorrendo às expensas do governo que recolhe os impostos e pouco se importa com as consequências. Torno público versos de minha autoria cujo título "Espelho do velho Chico", em forma de baião, foi escrita em decorrência desse protesto vendo os caminhões levando para as indústrias o carvão das matas ciliares. Esse crime contra a natureza, teve agora sua consequência trágica. Para tristeza nossa, presenciamos os estertores de uma potência hídrica reduzida à zero pela ganância e pelo desgoverno. Sim, realmente o espelho do velho Chico não retrata a vida não, o que já nos custa muito caro. E pior ainda ficará para as novas gerações, lamentavelmente. Na minha angústia, a cinquenta anos já cantava assim:

O Rio São Francisco
Encheu de verdade
Inundou nossas vilas, arraiais e cidades
Gaiola não desceu
Gaiola não subiu

Foi verdade 'Sêo' moço 
Esses 'zóios' viu (2x)

Olha o velho Chicão
É costela só
Machado e judiação
Fizeram caminhos de pó

Não deixe fazer machado
Jogue fora esse facão
Pra não ver caboclo triste
Nas barrancas do Chicão

Pra não ver caboclo triste
Nas barrancas do Chicão
Jogue fora esse machado
Não deixe fazer facão

Os matos de cabeceira
Cortaram sem compaixão
Matando peixe no rio
Acabando a criação
Cuidem da ecologia 
Enquanto  é tempo
Meu irmão

É o Espinhaço dobrado
Na força da destruição
Por isso de peito aberto
Eu grito contra o deserto
Que envergonha essa nação

Ê,ê, ê, ê meu irmão 
Espelho do velho Chico
Não retrata e vida não (repete o verso)

Helio Schiavo

Ponte Nova, há mais de cinquenta anos

sábado, 29 de novembro de 2008

Olavo o carteiro sem juízo

Olavo é irmão do padre Oswaldo e trabalhava no Correio
Vinha da Cidade para o Bairro com a bolsa cheia de correspondência
Ninguém esperava que ele fosse capaz de agir de modo feio
Pra diminuir o peso decidiu encher um buraco de cartas por conveniência

Carta de minha namorada não chegava mais e aí tive o pior receio
Já pensava até em arranjar outra por que isso me machucava a paciência
A população já andava desconfiando de maracutaia pelo meio
Por isso a campana no carteiro foi comprovada com rara eficiência

Descobri tudo e levei minha Professora Assumpção lá na beira do rio
Junto a Ponte de Ferro tinha carta de namorada, comércio, avó, amante, aderente e tio
E Assumpçao era diretora geral do correio e aí meteu sem dó a pua

Naquele tempo não existia essa porqueira de se safar com jeitinho
A solução veio logo pesando na cacunda de Sêo Olavinho
Pé no traseiro gordo que ele foi de vez catar cavaco no olho da rua!!


Helio Schiavo

PS: Do livro em preparo " Minha velha Ponte Nova", aproveito a ocasião para prestar um registro de memoráveis tempos de minha infância. Nessa poesia, tributo à minha primeira alcacoetagem, relembro a molecagem do carteiro Olavinho e a justa atitude da saudosa professora Maria Assumpção de Oliveira, minha mestra de francês na Escola Técnica de Comércio Pontenovense nos idos de 1950.